A inteligência artificial (IA) vem transformando a maneira como diferentes áreas do conhecimento produzem, analisam e compartilham informações. Na ciência, as possibilidades vão desde a busca e organização de pesquisas até a análise de grandes volumes de dados e o desenvolvimento de soluções para problemas complexos. Para professora e doutora Rejane Frozza, do Departamento de Engenharias, Arquitetura e Computação e do Programa de Pós-Graduação em Sistemas e Processos Industriais da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), o avanço da tecnologia representa uma oportunidade para ampliar a capacidade de pesquisa, mas não elimina a necessidade de conhecimento, criatividade e avaliação humana.
Segundo ela, a utilização da IA na ciência não começou com a popularização das ferramentas de Inteligência Artificial Generativa (IAG), como ChatGPT e Gemini. A área reúne diferentes técnicas, entre elas aprendizado de máquina, redes neurais artificiais, processamento de linguagem natural e visão computacional, por exemplo.
Essas tecnologias já estão presentes em aplicações que fazem parte do cotidiano e também podem contribuir para pesquisas em áreas como saúde, agricultura, indústria, gestão e ciência de dados. Entre os exemplos citados por Rejane estão sistemas capazes de analisar dados de doadores e estoques de sangue para auxiliar na identificação de pessoas aptas a doar, ferramentas de apoio a pessoas com deficiência e sistemas de reconhecimento de imagens e características.
O crescimento das ferramentas de IA também modificou etapas específicas do trabalho científico. De acordo com Rejane, pesquisadores podem utilizar esses recursos para localizar documentos relacionados aos temas estudados, sintetizar informações e identificar relações entre diferentes trabalhos científicos.
Esse ganho de agilidade, no entanto, vem acompanhado de uma responsabilidade que permanece com os pesquisadores. “O desafio está em manter a integridade e comprometimento com a revisão cuidadosa do material gerado e sempre manter a criticidade e o conhecimento necessários”, ressalta.
Tecnologia como apoio, não como substituição
Para Rejane, um dos principais desafios está em evitar que a facilidade proporcionada pela IA resulte na dependência da tecnologia. “A responsabilidade está na pessoa”, afirma. Ainda de acordo com a professora, as ferramentas de Inteligência Artificial Generativa devem funcionar como apoio ao processo científico, e não como autoras das pesquisas.
Neste sentido, a revisão cuidadosa do material produzido pela IA se torna fundamental. O pesquisador, assim como qualquer outro profissional que faça uso das ferramentas, precisa questionar as respostas recebidas, verificar as informações, compreender os resultados e utilizar seu próprio conhecimento para tomar decisões.
A preocupação também se estende à criatividade. Conforme Rejane, quando o indivíduo deixa de estimular o próprio raciocínio e passa a delegar às ferramentas tarefas que envolvem pensamento, criação e aprofundamento, pode haver prejuízos à criatividade, à atenção, à memória e ao pensamento crítico.
“Os profissionais precisam se sentir desafiados a sair de suas zonas de conforto intelectual, evitando dependência excessiva do uso de ferramentas de IAG”, destaca.
Ética e integridade científica
O uso da IA na pesquisa também traz novos desafios éticos. Entre os riscos apontados pela professora estão a utilização sem curadoria, a omissão de dados desfavoráveis aos resultados, a não declaração do uso das ferramentas e o desrespeito às normas éticas e de proteção de dados.
“A ética é responsabilidade das pessoas. A IAG oferece as ferramentas, mas estas devem ser entendidas em relação a como funcionam para gerar os resultados e em quais tarefas podem ser utilizadas” alerta Rejane.
Frozza também destaca a importância das normas que orientam o uso da tecnologia na produção científica. Segundo ela, a Portaria CNPq nº 2.664, de 6 de março de 2026, estabelece considerações relacionadas à integridade da pesquisa, regulação do uso da Inteligência Artificial Generativa, à responsabilidade e à transparência.
Formação de pesquisadores para um novo cenário
Diante das transformações provocadas pela IA, professores e orientadores passam a ter um papel importante na preparação de novos pesquisadores. Para Rejane, é necessário investir em educação e capacitação em IA, com uma abordagem multidisciplinar e participativa.
“É preciso pensar em utilizar a IA para reforçar o papel dos humanos no controle e programação das tecnologias que envolvem a inteligência artificial, de forma a priorizar a formação/educação desses indivíduos”, sugere.
Para a professora, a formação precisa ser contínua. Em um cenário de rápidas transformações tecnológicas, a aprendizagem dos profissionais e da sociedade como um todo precisa ser contínua.
Mais do que aumentar a produtividade científica, a utilização responsável da inteligência artificial pode contribuir para aproximar o conhecimento produzido nas universidades das necessidades da sociedade. Entre as possibilidades estão o desenvolvimento de soluções que ofereçam mais segurança, conforto, confiabilidade e inovação.
Nesse processo, a tecnologia não substitui o papel humano. Ao contrário, exige profissionais preparados para compreender, controlar, avaliar e direcionar o seu uso da maneira mais responsável possível.
A perspectiva apresentada por Rejane é de que a inteligência artificial deve ser incorporada à ciência de maneira consciente, ética e inclusiva. O desafio, portanto, não está apenas em aprender a utilizar novas ferramentas, mas em garantir que elas sejam empregadas para ampliar a capacidade humana de produzir conhecimento, sem substituir o pensamento crítico que sustenta a própria atividade científica.
Texto: Estagiário Lurian Schultz
sob supervisão das jornalistas Tatiane Luci Rodrigues e Bruna Lovato


