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A tuberculose continua sendo uma grave ameaça à saúde pública no Brasil, principalmente para populações em situação de exclusão social e vulnerabilidade, como pessoas que vivem nas ruas, usuários de drogas, pessoas que vivem com HIV/AIDS e destaque para o sistema carcerário. Os dados oficiais confirmam o forte vínculo entre o adoecimento e a vulnerabilidade social: o perfil epidemiológico da tuberculose no país é composto, em sua grande maioria, por homens jovens, negros e com baixa escolaridade. 

Em 2025, segundo o Ministério da Saúde, o Rio Grande do Sul registrou 5.253 casos, com incidência de quase 47 doentes a cada 100 mil habitantes, enquanto no Brasil foram mais de 85 mil casos registrados no ano. Mesmo com métodos de diagnóstico eficazes e um tratamento de baixo custo, as principais dificuldades são a falta de acesso a serviços de saúde integrados e de qualidade, falta de teste, confirmação laboratorial correta, falta de recursos financeiros e fatores socioeconômicos estruturais.

Dessa forma, combater a tuberculose nas prisões é essencial, porque o risco de adoecimento nesse ambiente é de 28 a 35 vezes superior ao da população geral, tornando o cárcere um motor da epidemia no país. Como a saúde dentro de presídios não é isolada, possui grande entrada e saída de pessoas, faz com que a doença ultrapasse os muros e alcance as ruas das comunidades. 

Ao entender a importância do tema, a Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) atua há mais de 12 anos na compreensão e controle da tuberculose no sistema prisional gaúcho. Por meio do Núcleo de Pesquisa e Extensão com Foco no Sistema Prisional (NUPESISP), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Promoção da Saúde (PPGPS) e sob a coordenação da professora Lia Gonçalves Possuelo, a Universidade desenvolve investigações científicas e projetos de extensão e inovação voltadas à prevenção, diagnóstico precoce e cuidado de populações vulneráveis no ambiente prisional. 

Quebrando Barreiras

Uma das iniciativas pioneira no combate à tuberculose no sistema prisional é o Projeto Quebrando Barreiras, que aplica estratégias de triagem em apenados e educação permanente em saúde para trabalhadores que atuam no sistema prisional gaúcho. A proposta é uma iniciativa da Unisc, por meio do Nupesisp e do PPGPS, com apoio da Secretaria de Sistemas Penal e Socioeducativo (SSPS), da Polícia Penal e da Secretaria Estadual da Saúde.   

A primeira triagem ocorreu na Penitenciária Estadual de Venâncio Aires (PEVA), com um processo de rastreamento rápido e eficaz para identificar a presença da doença, além de outras infecções como HIV, sífilis e hepatites virais entre a população privada de liberdade. Segundo Lia, a triagem em massa é um esforço inovador, que visa superar as barreiras tradicionais no atendimento à saúde dentro das penitenciárias. Utilizando um Raio-x portátil, com inteligência artificial, e teste rápido molecular, o projeto oferece diagnóstico preciso e ágil para a tuberculose, além de realizar a testagem para HIV, sífilis e hepatites virais.

Os resultados obtidos ao longo dessa ação, além de mapear a incidência de doenças, servirão para reforçar o apelo por mais investimentos em tecnologia e melhores condições de diagnóstico dentro das unidades prisionais. “O projeto visa, reduzir a cadeia de transmissão de tuberculose, tanto dentro do sistema quanto nas comunidades onde essas prisões estão localizadas, pois existe um grande fluxo de pessoas nas prisões, que entram e saem todos os dias, levando as doenças para a comunidade. Combatendo a tuberculose no sistema prisional estaremos  reduzindo a transmissão da doença na comunidade, de forma significativa”, diz Lia.  

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Primeira triagem ocorreu na PEVA. Na imagem, o reitor da Unisc, Rafael Henn, e a professora Lia Possuelo - Foto: Tatiane Rodrigues/Unisc

Sintomas, diagnóstico e transmissão

Doença infecciosa e transmissível pelo ar, a tuberculose se espalha pela eliminação de partículas que contêm a bactéria quando uma pessoa doente tosse, fala ou espirra. O contágio é facilitado por ambientes com infraestrutura precária, como celas superlotadas, com pouca ventilação e sem entrada de luz solar. Além disso, fatores como o uso abusivo de álcool e drogas, comorbidades como Aids e diabetes, enfraquecem o sistema imunológico e podem aumentar o risco de transmissão e gravidade.  

Os principais sintomas da tuberculose incluem tosse persistente por mais de duas semanas, febre (normalmente ao entardecer), suor noturno, perda de peso excessiva, fraqueza e cansaço. Para diferenciar a tuberculose de outras doenças respiratórias, a medicina recorre a exames específicos: a baciloscopia de escarro, a cultura e o Teste Rápido Molecular (TRM-TB), além da radiografia de tórax para identificar lesões pulmonares. 

A prevenção começa logo na infância com a famosa vacina BCG, que protege as crianças contra as formas graves da tuberculose. Quando um caso é confirmado, o tratamento envolve ingestão de medicamentos pelo período ininterrupto de seis meses. Em paralelo, o protocolo exige o isolamento do paciente e a investigação imediata de contatos próximos para que ocorra a interrupção da cadeia de transmissão.

Para alcançar as metas globais de eliminação da tuberculose até 2030 e 2050, as grandes apostas envolvem a incorporação de tecnologias avançadas, como unidades móveis com raio-X digital interpretado por inteligência artificial, aliadas ao fortalecimento do engajamento comunitário, capacitação de agentes promotores de saúde para revolucionar a vigilância e o controle da doença. 

Texto: Estagiária Eduarda Beulke
sob supervisão das jornalistas Tatiane Luci Rodrigues e Bruna Lovato

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