Jornal da Universidade de Santa Cruz do Sul - Ano XII - Nº 65 - SETEMBRO de 2006

entrevista


FERNANDA MALLMANN



AmÉrica dependente


As dimensões da pobreza na América Latina e a cultura do novo capitalismo foi o tema da palestra do professor da PUC e diretor do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas (IPTC), Carlos Nelson dos Reis, no dia 14 de agosto. A palestra foi uma homenagem ao Dia do Economista, comemorado em 13 de agosto. A palestra reuniu estudantes de Economia, Administração e Ciências Sociais, além de profissionais da área. Na entrevista a seguir, Reis fala sobre as causas da pobreza e o momento atual na América Latina.

Jornal da UniscA pobreza é homogênea hoje nos países da América Latina? Existe um problema semelhante entre os países ou ele difere de país para país?
Carlos Nelson dos Reis – Existem várias maneiras de perceber a pobreza. Nós economistas usamos metodologias que estabelecem níveis de renda. A partir desses níveis, os que estão abaixo se classificam como pobres e os que estão acima seriam os não-pobres. Pelos dados, pouco mais de dois terços da América Latina está nessa condição de pobreza. Há uma diferença entre a pobreza relativa e a pobreza absoluta. Pobreza relativa são aquelas pessoas que têm uma remuneração que lhes dá condições de suprir as suas necessidades básicas e a pobreza absoluta são aquelas pessoas que têm níveis de renda zero ou que não suprem as suas necessidades básicas e isso acontece na América Latina numa boa parcela. Mas a pobreza não é homogênea porque o entendimento tem que ser feito a partir da multidimensionalidade. E ela respeita valores, costumes, cultura, hábitos alimentares...

JUEssa multidimensionalidade é que determina o nível de pobreza?
Reis – Exatamente. Porque você pode ter um determinado nível de renda morando num país A da América e ser qualificado como sendo pobre. Se você vai para um país B da América, com esse mesmo nível de renda, você já pode estar acima daquela linha de pobreza e não ser tratado como pobre. Para entender o fenômeno você tem que considerar peculariedades regionais, culturais, hábitos, desde alimentares a demandas com serviços públicos, etc.

“Se a América Latina, nas suas origens, já tinha contingentes de
excluídos, atualmente soma-se a esse conjunto os novos excluídos,
advindos do desemprego estrutural”

JU Há uma situação na América Latina que o senhor apontaria como mais crítica?
Reis – Precisamos considerar as particularidades de cada país. O estágio da democracia nesses países também interfere. Não dá para apontar quais países estão em piores ou em melhores condições. Existe hoje um processo na América Latina em busca de condições para se inserir no contexto internacional, numa perspectiva de globalização, de mercados em todos os sentidos, seja mercado de trabalho, cultural, de produtos, de serviços, de tecnologias. Se percebe um esforço para isso, mas também se percebe que as restrições para isso são grandes porque, historicamente, a América Latina tem essa condição de ser uma região agrária exportadora.

JUPor que a América Latina vive essa situação de pobreza ainda hoje?
Reis – Porque historicamente ela carrega esse estigma de ser um espaço agrário exportador com praticamente todas as suas condições de crescimento voltadas para fora, dependendo do mercado externo. No momento atual, mesmo que muitos países da América Latina já tenham alterado a sua base produtiva, deixado para trás essa vocação agrária exportadora e já num estágio bastante avançado de uma base industrial, a dependência não se alterou, quer dizer, a América Latina ainda permanece dependente. Se antes ela era dependente de produtos primários para o mercado externo, hoje ela continua dependente de capitais, de tecnologias, de muitas coisas. Essas são as restrições que ela busca nos diferentes países. Ela busca estabelecer condições para eliminar ou diminuir essas restrições. A solução é difícil porque depende de ações particulares já que há heterogeneidade nos países.

JUO senhor afirma que a exclusão social é a soma da exclusão política e da exclusão econômica. Isso se percebe de maneira geral na América Latina?
Reis – De maneira nítida. Exclusão econômica vem num contexto muito mais desse recorte de renda, acoplada a um processo de reestruturação produtiva, que tem proliferado um desemprego estrutural, um desemprego de longo prazo. Se a América Latina, nas suas origens tradicionais, já tinha contingentes de excluídos, pobres, mendigos, minorias sociais, atualmente soma-se a esse conjunto os novos excluídos, advindos do desemprego estrutural, que são pessoas que já tiveram uma inserção, mas agora estão fora porque aqueles empregos que tinham já não existem mais. Essa exclusão aumentou, por isso que temos dois terços de excluídos na América Latina.

JUO desemprego gera essa situação de exclusão especialmente?
Reis – É um dos motivos. Mas é um desemprego estrutural, provocado por uma mudança de base produtiva, de tecnologias que movimentam a produção de bens e serviços. Isso é mundial, só que em países mais atrasados, países de capitalismo tardio, classificados como tal porque entraram num processo de reprodução capitalista muito depois dos países centrais, que é o caso da maior parte dos países da América Latina, esses países acabam tendo mais dificuldades dentro desse novo contexto. Isso porque há populações grandes e que não possuem conhecimento para se capacitar a se inserir nesse contexto. Acabam ficando de fora e a pobreza aumenta. É como uma resultante .

JUNa Europa existe um sistema de proteção para pessoas desempregadas. Isso no Primeiro Mundo. Que outras alternativas o senhor veria para América Latina?
Reis – Não haveria uma solução mágica. Existem alternativas na França, na Alemanha e também em outros países europeus de ter um sistema de proteção que estabelece condições de vivência com dignidade para a população excluída. Se torna inimaginável aqui porque precisa de recursos. Na França se tem o salário de referência. Todas as pessoas recebem aquele salário, estando empregadas ou não. Aqui nós temos uma bolsa-família que, para ter direito, a renda per capita familiar tem que estar na faixa dos R$ 80. São muito diferentes as duas realidades. Aqui não haveria recursos.

JUPara a nossa realidade, qualquer tentativa de minimizar o problema será a longo prazo?
Reis – Situações de transformações societárias são um processo e eles não se desenvolvem em curto prazo. Processos não acontecem do dia para a noite e não são simples.





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