
FERNANDA
MALLMANN
AmÉrica
dependente
As dimensões da pobreza na América Latina e a cultura
do novo capitalismo foi o tema da palestra do professor da PUC e diretor
do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas (IPTC),
Carlos Nelson dos Reis, no dia 14 de agosto. A palestra foi uma homenagem
ao Dia do Economista, comemorado em 13 de agosto. A palestra reuniu estudantes
de Economia, Administração e Ciências Sociais, além
de profissionais da área. Na entrevista a seguir, Reis fala sobre
as causas da pobreza e o momento atual na América Latina.
Jornal da Unisc – A pobreza é homogênea hoje nos
países da América Latina? Existe um problema semelhante
entre os países ou ele difere de país para país?
Carlos Nelson dos Reis – Existem várias maneiras de perceber
a pobreza. Nós economistas usamos metodologias que estabelecem
níveis de renda. A partir desses níveis, os que estão
abaixo se classificam como pobres e os que estão acima seriam
os não-pobres. Pelos dados, pouco mais de dois terços da
América Latina está nessa condição de pobreza.
Há uma diferença entre a pobreza relativa e a pobreza absoluta.
Pobreza relativa são aquelas pessoas que têm uma remuneração
que lhes dá condições de suprir as suas necessidades
básicas e a pobreza absoluta são aquelas pessoas que têm
níveis de renda zero ou que não suprem as suas necessidades
básicas e isso acontece na América Latina numa boa parcela.
Mas a pobreza não é homogênea porque o entendimento
tem que ser feito a partir da multidimensionalidade. E ela respeita valores,
costumes, cultura, hábitos alimentares...
JU – Essa multidimensionalidade é que determina o nível
de pobreza?
Reis – Exatamente. Porque você pode ter um determinado nível
de renda morando num país A da América e ser qualificado
como sendo pobre. Se você vai para um país B da América,
com esse mesmo nível de renda, você já pode estar
acima daquela linha de pobreza e não ser tratado como pobre. Para
entender o fenômeno você tem que considerar peculariedades
regionais, culturais, hábitos, desde alimentares a demandas com
serviços públicos, etc.
“Se a América Latina, nas suas origens, já tinha contingentes
de
excluídos, atualmente soma-se a esse conjunto os novos excluídos,
advindos do desemprego estrutural”
JU – Há uma situação na América Latina
que o senhor apontaria como mais crítica?
Reis – Precisamos considerar as particularidades de cada país.
O estágio da democracia nesses países também interfere.
Não dá para apontar quais países estão em
piores ou em melhores condições. Existe hoje um processo
na América Latina em busca de condições para se
inserir no contexto internacional, numa perspectiva de globalização,
de mercados em todos os sentidos, seja mercado de trabalho, cultural,
de produtos, de serviços, de tecnologias. Se percebe um esforço
para isso, mas também se percebe que as restrições
para isso são grandes porque, historicamente, a América
Latina tem essa condição de ser uma região agrária
exportadora.
JU – Por que a América Latina vive essa situação
de pobreza ainda hoje?
Reis – Porque historicamente ela carrega esse estigma de ser um
espaço agrário exportador com praticamente todas as suas
condições de crescimento voltadas para fora, dependendo
do mercado externo. No momento atual, mesmo que muitos países
da América Latina já tenham alterado a sua base produtiva,
deixado para trás essa vocação agrária exportadora
e já num estágio bastante avançado de uma base industrial,
a dependência não se alterou, quer dizer, a América
Latina ainda permanece dependente. Se antes ela era dependente de produtos
primários para o mercado externo, hoje ela continua dependente
de capitais, de tecnologias, de muitas coisas. Essas são as restrições
que ela busca nos diferentes países. Ela busca estabelecer condições
para eliminar ou diminuir essas restrições. A solução é difícil
porque depende de ações particulares já que há heterogeneidade
nos países.
JU – O senhor afirma que
a exclusão social é a soma
da exclusão política e da exclusão econômica.
Isso se percebe de maneira geral na América Latina?
Reis – De maneira nítida. Exclusão econômica
vem num contexto muito mais desse recorte de renda, acoplada a um processo
de reestruturação produtiva, que tem proliferado um desemprego
estrutural, um desemprego de longo prazo. Se a América Latina,
nas suas origens tradicionais, já tinha contingentes de excluídos,
pobres, mendigos, minorias sociais, atualmente soma-se a esse conjunto
os novos excluídos, advindos do desemprego estrutural, que são
pessoas que já tiveram uma inserção, mas agora estão
fora porque aqueles empregos que tinham já não existem
mais. Essa exclusão aumentou, por isso que temos dois terços
de excluídos na América Latina.
JU – O desemprego gera essa
situação de exclusão
especialmente?
Reis – É um dos motivos. Mas é um desemprego estrutural,
provocado por uma mudança de base produtiva, de tecnologias que
movimentam a produção de bens e serviços. Isso é mundial,
só que em países mais atrasados, países de capitalismo
tardio, classificados como tal porque entraram num processo de reprodução
capitalista muito depois dos países centrais, que é o caso
da maior parte dos países da América Latina, esses países
acabam tendo mais dificuldades dentro desse novo contexto. Isso porque
há populações grandes e que não possuem conhecimento
para se capacitar a se inserir nesse contexto. Acabam ficando de fora
e a pobreza aumenta. É como uma resultante .
JU – Na Europa existe um
sistema de proteção para
pessoas desempregadas. Isso no Primeiro Mundo. Que outras alternativas
o senhor veria para América Latina?
Reis – Não haveria uma solução mágica.
Existem alternativas na França, na Alemanha e também em
outros países europeus de ter um sistema de proteção
que estabelece condições de vivência com dignidade
para a população excluída. Se torna inimaginável
aqui porque precisa de recursos. Na França se tem o salário
de referência. Todas as pessoas recebem aquele salário,
estando empregadas ou não. Aqui nós temos uma bolsa-família
que, para ter direito, a renda per capita familiar tem que estar na faixa
dos R$ 80. São muito diferentes as duas realidades. Aqui não
haveria recursos.
JU – Para a nossa realidade,
qualquer tentativa de minimizar o problema será a longo prazo?
Reis – Situações de transformações
societárias são um processo e eles não se desenvolvem
em curto prazo. Processos não acontecem do dia para a noite e
não são simples.
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